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Glúten – Nem tão vilão assim

As famosas da TV começaram a seguir a dieta “gluten-free” e ela logo virou moda. Antes disso, no entanto, esse nutriente já era proibido para os portadores da doença celíaca, que atinge cerca de 1% da população mundial.

Nela, o glúten não é bem aceito pelo intestino. Quando ele chega ao órgão desses pacientes (e só neles), desencadeia uma reação do sistema imunológico, que destaca células de defesa para atacar a região.

Nessa briga, acaba sobrando para as vilosidades intestinais, estruturas que são responsáveis por absorver os nutrientes da comida. “Pode ocorrer distensão abdominal, inchaço e dor”, explica o gastroenterologista Alexandre Sakano, de São Paulo. Nas crianças, a manifestação mais evidente é a dificuldade em ganhar peso e o comprometimento do crescimento. O diagnóstico é feito por meio de exame de sangue, observando-se a presença de anticorpos para a doença celíaca. Se der positivo, o gastroenterologista pode pedir uma biópsia do intestino feita por intermédio da endoscopia digestiva para a coleta de material para análise.

No caso dos celíacos, a reação provocada pelo glúten impede a absorção normal dos nutrientes. “O trânsito intestinal fica alterado e os nutrientes não são aproveitados como deveriam”, esclarece o gastroenterologista. Por isso, esses pacientes não podem consumir glúten, nem mesmo em pequenas quantidades. Também precisam fazer um acompanhamento nutricional para substituições equilibradas e ficar sempre de olho nos rótulos. Isso porque alguns alimentos, que originalmente não teriam glúten, podem conter o nutriente por contaminação cruzada, ou seja, foram manipulados em locais onde ocorreu o preparo de produtos com glúten. É o caso de alguns iogurtes, por exemplo. Toda a atenção é pouca!

Mas, e para quem não sofre da doença? Será que o glúten faz mal ou bem? Pois, segundo pesquisa da Universidade de Harvard (EUA), realizada ao longo de vinte anos, apresentou dados que revelam uma associação direta entre a dieta gluten-free e o diabetes tipo 2. Durante 30 anos, cerca de 200 mil pessoas se submeteram ao estudo. Essa análise mostrou que aqueles que cortaram esse nutriente da alimentação e não tinham doença celíaca aumentaram o risco de desenvolver a diabetes tipo 2. Mais precisamente: quem consome menos de 4 gramas de glúten por dia tem 13% a mais de chances de desenvolver um quadro de diabetes. Ao eliminá-lo das refeições, ocorre a redução da ingesta de fibras, essenciais para prevenir os picos de açúcar no sangue e controlar a glicose. As fibras auxiliam, ainda, na manutenção dos níveis desejados do colesterol, melhoram o trânsito intestinal e promovem saciedade, pois retardam a absorção do carboidrato pelo intestino.

O glúten, além de rico em fibras, também fortalece o sistema imunológico e facilita a absorção de vitaminas e minerais pelo organismo. Ele faz o pão ficar mais macio, crescer e está presente, inclusive, na cerveja. E mais: não há evidências comprovadas de que cortá-lo da alimentação ofereça benefícios a longo prazo. Perder peso deve ter como base refeições equilibradas, em porções adequadas e com todos os grupos de alimentos, dando preferência aos integrais.

Emagrece ou engorda?

O glúten está presente em farinhas e cereais que fazem parte do preparo de tortas, macarrão, biscoitos e pães. A restrição do glúten nas dietas pode levar ao emagrecimento, mas esse fato está, na maioria das vezes, associado à redução do consumo de carboidratos e não necessariamente à suspensão do glúten na alimentação. Apesar disso, essa proteína acabou ganhando ares de vilã e muita gente resolveu simplesmente cortá-la do cardápio, inclusive sem recomendação médica. A prática se generalizou como uma forma de perder peso e o velho e bom pão integral, por exemplo, foi parar longe da despensa.

A verdade é que a dieta “gluten-free” pode ser uma decepção para quem deseja emagrecer: “As pessoas se iludem. Tiram o glúten, mas o substituem por pães e massas produzidas com farinha de arroz, tapioca ou polvilho, que liberam mais insulina, um hormônio que aumenta o apetite. Na maioria das vezes, essa troca até engorda”, explica Vanderli Marchiori, nutricionista e consultora da Associação Brasileira da Indústria do Trigo (ABIT). “Por isso, pessoas que não são celíacas devem reconsiderar a restrição a fim de evitar doenças crônicas”.

Corte de carboidratos

Como muitos alimentos que contêm glúten são carboidratos, eles acabam sendo varridos do cardápio sem dó nem piedade. No entanto, dietas muito pobres em carboidratos afetam o organismo, que precisa deles como fonte de energia. “O baixo consumo causa fadiga e fraqueza, além de alterações de humor”, afirma a nutricionista Vanderli Marchiori. Outra consequência é a perda de massa muscular e a flacidez. A memória também fica comprometida, com diminuição da velocidade dos pensamentos e dificuldade para fixar informações. Segundo a nutricionista, a necessidade diária de carboidratos para o ser humano é de 40% a 50% do total diário de calorias, incluindo arroz, batata, pães integrais etc. O segredo, mais uma vez, está no equilíbrio.

Atenção aos cosméticos!!

Alguns hidratantes, shampoos, tinturas de cabelos, batons e brilhos labiais contêm glúten, mas nem sempre o aviso aparece no rótulo. Isso porque em suas formulações há a presença de proteínas de trigo (wheat), aveia (oats) e centeio (rye). Mesmo em quantidades ínfimas, eles podem causar reações a quem é portador de doença celíaca. Geralmente o componente aparece em inglês, no rótulo, como hidrolized wheat protein (proteína de trigo hidrolisada). Para o paciente celíaco que normalmente apresenta dermatoses leves na pele como coceira, prurido e placa avermelhada, a recomendação é evitar o uso desses cosméticos. A pele é o maior órgão do corpo humano e pode absorver substâncias de uso tópico e transportá-las para a corrente sanguínea. Imagine utilizar um hidratante corporal todos os dias e no corpo inteiro, com os ativos proibidos para os celíacos. Não vale arriscar!

 

Fonte: Revista Negócio Estética

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